Tem vacina contra a desinformação?

Por Juliana Matos Brito 23/05/2021 - 14:25 hs
Foto: Reprodução Redes Sociais
Tem vacina contra a desinformação?
A desinformação

Existem diversos estudos nas áreas da Comunicação e da Ciência da Informação sobre a desinformação, campo que abrange fenômenos como fake news e pós-modernidade na academia. Esse conceito pode ser definido dentro de um espectro diverso desde a ignorância pura e simples, definida como a falta de conhecimento ou informação sobre um assunto específico, até formas como a desinformação não deliberada (quando uma informação errada/imprecisa é divulgada), a desinformação deliberada (quando há o intuito de enganar mesmo) e até a falta de informação ou autoengano (na pós-verdade, as pessoas tendem a acreditar em suas crenças/opiniões ao invés de olhar um fato objetivo). Tudo misturado e dentro da realidade de hiperconectividade, quando somos bombardeados com informações de todos os lados, principalmente em aplicativos de mensagens e redes sociais, isso nos leva a um cenário caótico e perigoso.

Uma definição geral de desinformação pode ser descrita como tipos de informação falsa, inexata ou enganosa divulgada para causar danos públicos ou com fins de lucro. Um ato deliberado de indução ao erro ou de mostrar apenas uma parte da realidade para o interlocutor. A desinformação pode ocorrer inclusive com a divulgação de informações verdadeiras, mas escondendo outras verdades mais importantes para a compreensão do fato, mudando o enfoque, tirando de contexto.

Esse fenômeno não é novo, mas é potencializado pelas Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs). Na pandemia, a guerra de informações e a disputa política fizeram aparecer ainda mais um termo técnico: a infodemia. De acordo com a Organização Panamericana da Saúde, infodemia é "um excesso de informações, algumas precisas e outras não, que tornam difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa".

Informação, contexto e verdade


Na semana que passou, o deputado federal Capitão Wagner divulgou em suas redes sociais um vídeo do governador Camilo Santana supostamente apoiando o uso da hidroxocloroquina como tratamento para a Covid-19. Esse remédio faz parte do chamado "tratamento precoce" e não possui comprovação científica de que seja benéfico para tratar a Covid-19. Alguns políticos e médicos defendem o uso, mas o Governo do Estado, algumas associações de médicos no País e a Organização Mundial da Saúde, não.

O trecho do vídeo divulgado pelo parlamentar mostrava Camilo falando: "A cloroquina está no protocolo do estado do Ceará, agora, ela só é utilizada com a recomendação do médico. Só com a autorização do médico é que é utilizada a cloroquina para os seus pacientes". O problema é que o vídeo foi editado. Antes de falar isso, o governador destacou: "Quero dizer que o Estado não utiliza a cloroquina". Lendo essa frase e depois a frase disposta do vídeo, consegue-se entender o raciocínio do governador. Tirando essa frase, o contexto é alterado. O trecho pode ser visto aos 10 minutos e 28 segundos do vídeo completo.

A partir do projeto Comprova, coalizão de veículos de Jornalismo em todo o Brasil do qual O POVO faz parte desde o início, foi feita uma reportagem de checagem de notícias mostrando como o vídeo foi adulterado. A matéria mostra o vídeo original e o editado. E ainda traz informações sobre o protocolo do uso do medicamento citado pelo Estado (a partir de notas técnicas da Secretaria da Saúde), sobre a atuação de oposição do deputado e ainda os motivos de ter realizado a checagem. "O vídeo investigado teve mais de 213 mil reproduções, 16,2 mil curtidas e 1,5 mil comentários no Instagram até o dia 17 de maio. Conteúdos suspeitos sobre tratamento precoce têm sido recorrentes nas verificações feitas pelo Comprova na pandemia".

Após a publicação da checagem no dia 17 de maio, o deputado reagiu à matéria acusando o jornal de difamá-lo. Para explicar a situação, O POVO publicou no impresso do dia 18 matéria sobre a reação e detalhes da checagem sobre o vídeo. Sobre a decisão de publicar a reportagem e a Nota da Redação, o diretor de Jornalismo, Erick Guimarães, explica que foi um acerto natural com a editoria de Política. "A gente tomou a decisão de publicar o material do Comprova, que estava muito bem contextualizado. Foi muito importante o olhar local do Projeto Comprova. E o Capitão teve a reação muito forte. Depois, vimos com a editoria que precisávamos nos posicionar, já que o jornal foi citado. Foi um processo natural, encontramos um ponto firme e não agressivo. Uma resposta à altura".

Para o leitor, é de suma importância que as informações sejam colocadas da forma mais clara possível para que ele próprio possa tirar suas conclusões. Fazer uma checagem de uma informação viralizada é obrigação dos veículos de comunicação. Mais do que informar a verdade, essas matérias de checagem educam o leitor para que aprenda a distinguir notícias enganosas de fatos reais e contextualizados. Nessa torre de babel em que nos encontramos, a única forma de nos protegermos do perigo da desinformação é aprendendo a distinguir o que é verdade e o que não é.

OPOVOonline