Ciro e Paes alinham PDT e PSD no rumo de uma aliança

Por José Casado 07/02/2022 - 12:15 hs
Foto: Divulgação
Ciro e Paes alinham PDT e PSD no rumo de uma aliança
Ciro Gomes e Eduardo Paes ontem, no Rio

No PT de Lula, muitos consideram definido o resultado da eleição presidencial, embora faltem oito meses para a contagem dos votos. Fundamentam sua avaliação na consistência de uma liderança isolada nas pesquisas, desde julho, com média de 20 pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado, Jair Bolsonaro.

Para esses, certamente, nada de relevante aconteceu ontem, no Rio, no encontro de Ciro Gomes (PDT), adversário de Lula, com Eduardo Paes (PSD), prefeito do Rio.

Eles começaram um jogo de paciência, definido como um “pré-entendimento” sobre a eleição estadual. Até julho decidem se Rodrigo Neves (PDT), ex-prefeito de Niterói, concorrerá ao governo do Estado do Rio e Felipe Santa Cruz (PSD), advogado, vai disputar o Senado. Ou o contrário.

Foi lance local, no terceiro maior colégio eleitoral do país, marcado pela ambição de uma aliança mais ampla. “A ideia é que se construa essa dinâmica [no Rio] em conjunto”, disse Ciro, acrescentando: “Do ponto de vista nacional, paciência, paciência, paciência…”

Ele é o candidato do PDT. O prefeito Paes pertence ao PSD, que está numa situação incomum: tem um candidato, o senador mineiro Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, várias vezes anunciado pelo chefe do partido, Gilberto Kassab, mas ainda relutante quanto à candidatura.

“Ele [Paes] tem compromisso com o partido” — prosseguiu. “E eu respeito muito isso, porque não sou como o Lula. O Lula está destruindo o PSOL, o PCdoB, o PSB. Porque para o Lula, o PT tem que ficar sozinho. O único partido progressista que resiste a isso é o PDT.”

A mesma crítica é feita pelo prefeito da cidade com cinco milhões de eleitores, mais de um terço dos votos do Estado do Rio, e que é a base de Bolsonaro, candidato à reeleição.

Depois de oito meses de conversas, Paes anunciou ter descartado Lula como “fator relevante” ao seu projeto estadual. “A posição [de Lula] tem sido: ‘Quero governo do Estado, Senado e Presidência da República e quem quiser vir que bata palma pra mim” — criticou em conversa com os repórteres Cristian Klein e Francisco Góes, do Valor. “A postura do Lula não é a de alguém que está buscando somar.”

Ontem, se acertou com o PDT. Deixou Ciro confiante, mas cauteloso: “Quero que o PSD tenha o tempo dele [para alianças]. Eu gostaria muito de ter esse apoio, mas respeito o tempo deles. Estamos trabalhando em várias frentes, mas acreditamos que [as conversas] só ficarão maduras diante dos prazos [das convenções, em julho] e diante da minha performance [como candidato]. É paciência, paciência…”

Ciro e Paes começaram um jogo com o tempo. Se vai dar certo, nem eles sabem. Mas ao construir uma ponte entre PDT e PSD no ritmo do calendário eleitoral, ecoam o deputado Ulysses Guimarães (1916-1992) na presidência da Constituinte: “Em política, o tempo não perdoa a quem não souber trabalhar com ele”.