Ano de eleição: quando tudo “funciona” e as promessas voltam do freezer

Por Paulo Sergio de Carvalho 16/12/2025 - 08:56 hs
Foto: PSC JORNALISMO VERDADE
Ano de eleição: quando tudo “funciona” e as promessas voltam do freezer
Ano de eleição: quando tudo “funciona” e as promessas voltam do freezer

É quase um ritual da política brasileira: basta o calendário eleitoral se aproximar para que o país entre, ao menos no discurso, em um estado de pleno funcionamento.

Obras reaparecem, programas ganham novo fôlego, anúncios se multiplicam e promessas antigas, muitas delas esquecidas ao longo de quatro anos, voltam a ser requentadas como se fossem novidades.

Em 2026, o Brasil viverá mais uma eleição geral. Estarão em disputa a Presidência da República, dois terços do Senado (dois senadores por estado), a Câmara Federal, as Assembleias Legislativas e os governos estaduais. Um cardápio amplo, que naturalmente aquece os bastidores e acirra narrativas — sobretudo de quem está no poder.

Nessa época, governantes tentam convencer a população de que vivemos “as mil maravilhas”, de que tudo funciona a pleno vapor e de que os problemas históricos finalmente estão sendo enfrentados. O que muitos esquecem — ou preferem que o eleitor esqueça — é que essas mesmas promessas já foram feitas no início do mandato e, passados quatro anos, não se concretizaram. O remédio, então, é reapresentar o discurso, agora com urgência eleitoral.


No Ceará, dois exemplos são emblemáticos e tocam em feridas sensíveis da atual gestão estadual: saúde e segurança pública.

Na saúde, a promessa do governador Elmano de Freitas (PT) de zerar as filas de cirurgias eletivas não se concretizou no tempo anunciado. Agora, nos momentos finais do mandato, o governo tenta “dar um gás”, ampliando atendimentos para reduzir uma demanda que segue quilométrica.

A iniciativa é necessária, sem dúvida, mas não apaga o fato de que a promessa não foi cumprida no prazo e só ganhou tração real às vésperas do ano eleitoral.


Já na segurança pública, a situação é ainda mais delicada. O discurso firme e o tom duro adotados pelo governador no início da gestão soaram como sinal de que o Estado retomaria o controle. Na prática, porém, muitos avaliam que o governo “perdeu a mão”.

A criminalidade cresceu, o Ceará passou a figurar entre os estados mais violentos do país e chegou a ter um município, Maranguape, no topo do ranking das cidades mais perigosas do Brasil. O contraste entre retórica e realidade pesa — e muito — no julgamento do eleitor.

Enquanto isso, os bastidores da política cearense fervilham. Pré-candidatos se movimentam, disputam espaço, inclusive dentro dos próprios partidos e coligações, e testam seus nomes junto ao eleitorado. Até o momento, apenas o senador Eduardo Girão (NOVO) e o governador Elmano de Freitas (PT) se declararam oficialmente pré-candidatos ao governo do Estado em 2026.

Curiosamente, ambos aparecem atrás nas pesquisas de um nome que ainda sequer confirmou se entrará na disputa: o ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes, hoje no PSDB. Enquetes e levantamentos informais que pipocam pelo Ceará inteiro apontam Ciro como favorito, inclusive com possibilidade de vitória ainda no primeiro turno, caso decida concorrer.


Nos municípios, a engrenagem também começa a girar. As articulações para deputado federal e estadual ganham corpo, embora muitas definições fiquem para um pouco mais à frente. O mesmo vale para as chapas majoritárias: Senado, Governo do Estado e Presidência da República ainda terão capítulos decisivos a serem escritos.

Uma coisa, no entanto, parece certa e conhecida do eleitor mais atento: em ano de eleição, tudo anda mais rápido, tudo aparece mais bonito e tudo “funciona melhor”.

O desafio da população é não se deixar levar apenas pelo brilho momentâneo das promessas recicladas e lembrar que governar bem não é correr no último ano, mas cumprir o que foi prometido desde o primeiro dia de mandato.