Quando o palanque fala mais alto que a praça
A manifestação em defesa da
democracia realizada em Juazeiro do Norte,
nesta quinta-feira, cumpriu o ritual político, mas deixou evidente um problema
que se repete em diversas cidades do país: a dificuldade de transformar discurso
institucional em engajamento popular real. Apesar da convocação
nacional e do simbolismo da data, o ato teve caráter limitado, reunindo um
público restrito, majoritariamente ligado a movimentos sociais, sindicatos e
lideranças políticas já alinhadas.
O
cenário foi o de um evento organizado, com falas previsíveis, pautas nacionais
e apresentações simbólicas, mas sem a adesão espontânea da população
juazeirense. Em uma das maiores cidades do interior do Ceará,
referência econômica e política no Cariri, a mobilização ficou longe de ocupar
o espaço público com a força que a gravidade do tema exigiria.
A
defesa da democracia, embora legítima, parece ter sido apresentada mais como agenda
de militância do que como causa capaz de dialogar com as
angústias cotidianas da população. O resultado foi uma manifestação correta no
conteúdo, mas frágil na forma: pouca gente, pouca diversidade e impacto
político reduzido.
Juazeiro
do Norte, historicamente palco de grandes mobilizações populares, deu sinais
claros de que convocações verticais e discursos prontos já não
mobilizam como antes. A praça vazia não é apenas ausência
física; é um recado político. Quando a população não comparece, não significa
rejeição à democracia, mas sim distanciamento de quem tenta
monopolizar sua defesa.
O ato deixa uma lição incômoda: democracia não se sustenta apenas com palavras de ordem, nem se reafirma em eventos protocolares. Sem conexão real com o povo, até as causas mais nobres correm o risco de ecoar apenas entre os que já estão convencidos. E, em política, isso é sinal de alerta — não de vitória.


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