Quando o palanque fala mais alto que a praça

Por Paulo Sergio de Carvalho 12/01/2026 - 19:47 hs
Foto: PSC JORNALISMO VERDADE
Quando o palanque fala mais alto que a praça
Quando o palanque fala mais alto que a praça de Juazeiro do Norte

A manifestação em defesa da democracia realizada em Juazeiro do Norte, nesta quinta-feira, cumpriu o ritual político, mas deixou evidente um problema que se repete em diversas cidades do país: a dificuldade de transformar discurso institucional em engajamento popular real. Apesar da convocação nacional e do simbolismo da data, o ato teve caráter limitado, reunindo um público restrito, majoritariamente ligado a movimentos sociais, sindicatos e lideranças políticas já alinhadas.

O cenário foi o de um evento organizado, com falas previsíveis, pautas nacionais e apresentações simbólicas, mas sem a adesão espontânea da população juazeirense. Em uma das maiores cidades do interior do Ceará, referência econômica e política no Cariri, a mobilização ficou longe de ocupar o espaço público com a força que a gravidade do tema exigiria.

A defesa da democracia, embora legítima, parece ter sido apresentada mais como agenda de militância do que como causa capaz de dialogar com as angústias cotidianas da população. O resultado foi uma manifestação correta no conteúdo, mas frágil na forma: pouca gente, pouca diversidade e impacto político reduzido.

Juazeiro do Norte, historicamente palco de grandes mobilizações populares, deu sinais claros de que convocações verticais e discursos prontos já não mobilizam como antes. A praça vazia não é apenas ausência física; é um recado político. Quando a população não comparece, não significa rejeição à democracia, mas sim distanciamento de quem tenta monopolizar sua defesa.

O ato deixa uma lição incômoda: democracia não se sustenta apenas com palavras de ordem, nem se reafirma em eventos protocolares. Sem conexão real com o povo, até as causas mais nobres correm o risco de ecoar apenas entre os que já estão convencidos. E, em política, isso é sinal de alerta — não de vitória.