Protagonismo sem cheque
Em períodos eleitorais, a comunicação governamental deixa de ser apenas institucional e passa a ser, inevitavelmente, política. No Ceará, o governador Elmano de Freitas enfrenta esse dilema ao associar sua imagem a grandes obras realizadas pelo Governo Federal, como a duplicação da BR-116. A estratégia levanta uma pergunta central: Elmano acerta ou erra ao avocar para seu governo obras financiadas pela União?
Do ponto de vista político-eleitoral, a escolha é compreensível. Obras geram capital simbólico, transmitem sensação de gestão ativa e reforçam a imagem de liderança. Em um Estado historicamente dependente de investimentos federais em infraestrutura pesada, aparecer ao lado de obras é uma forma de demonstrar articulação e alinhamento com Brasília — sobretudo quando o presidente é do mesmo campo político.
No entanto, o cálculo político tem riscos claros.
Há uma diferença objetiva entre articular politicamente e assumir protagonismo financeiro. No caso da BR-116 e de outras obras federais no Ceará, o financiamento, o planejamento e a execução pertencem à União, por meio do DNIT e do orçamento federal. O Governo do Estado atua como parceiro institucional, não como investidor direto.
Quando o discurso oficial não deixa essa distinção clara, o governo estadual se expõe à crítica de apropriação indevida de méritos, o que pode minar a credibilidade do gestor junto a setores mais atentos da opinião pública, da imprensa e da oposição.
Em ano eleitoral, a tentativa de “colar” a imagem do governador a obras federais pode gerar o efeito contrário ao desejado. O eleitor tende a perceber quando há exagero retórico. Ao insistir em uma narrativa de protagonismo sem lastro financeiro, o governo corre o risco de transformar uma vantagem — a presença de investimentos federais — em um flanco político.
Além disso, ao concentrar o discurso em obras da União, o governador abre espaço para uma pergunta incômoda: quais são as grandes obras financiadas exclusivamente pelo Estado do Ceará?
Acerto tático, erro estratégico?
No curto prazo, a estratégia pode render dividendos eleitorais, especialmente entre eleitores menos atentos às engrenagens do pacto federativo. No médio e longo prazo, porém, a prática tende a desgastar a imagem institucional do governo, reforçando a narrativa de marketing político em detrimento da transparência administrativa.
Governadores que constroem reputação sólida costumam fazer o caminho inverso: dão crédito a quem financia, assumem o que é de sua responsabilidade e apresentam resultados próprios. Isso fortalece a imagem de liderança madura e confiável.
Elmano de Freitas não erra ao acompanhar, apoiar e divulgar obras federais no Ceará. Isso é parte legítima do papel de um governador. O erro começa quando o discurso ultrapassa a linha da articulação e entra no terreno da apropriação política.
Em ano eleitoral, o eleitor pode até aceitar o jogo da imagem. Mas dificilmente perdoa quando percebe que o marketing tenta ocupar o lugar da verdade. Em política, quem confunde presença com autoria corre o risco de transformar obra em discurso — e discurso em desgaste.


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