Traição e poder: como Camilo isolou Cid no Ceará

Por Redação O Otimista 27/02/2026 - 18:42 hs
Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil
Traição e poder: como Camilo isolou Cid no Ceará
Cid Gomes e Camilo Santana

A política cearense vive hoje um de seus enredos mais complexos e controversos, marcado por alianças, estratégias silenciosas e acusações de traição que reconfiguraram o cenário de poder no Estado. Nesse contexto, a relação entre o senador Cid Gomes e o ministro Camilo Santana tornou-se um dos episódios mais emblemáticos das disputas internas do grupo que governa o Ceará.

Quando ainda governava o Estado, Cid apostou todas as fichas em Camilo. Mesmo após derrotas eleitorais anteriores em sua cidade natal, Barbalha, Camilo foi alçado a deputado estadual, secretário de Estado e, posteriormente, escolhido como sucessor ao Governo do Ceará.

A decisão consolidou uma relação política baseada em confiança e continuidade de projeto. Porém, segundo aliados próximos, foi justamente após assumir o governo que o petista iniciou um processo gradual de fortalecimento próprio, ampliando sua base política e reduzindo a influência do antigo padrinho.

Nos últimos anos do mandato de Camilo, o cenário sucessório ganhou contornos de disputa interna. Enquanto, publicamente, defendia unidade, nos bastidores crescia a percepção de que o então governador articulava um projeto pessoal.

Um episódio emblemático teria ocorrido em reunião na casa do suplente de senador Júlio Ventura, com a presença de Cid Gomes, Camilo e Ciro Gomes. Na ocasião, Ciro defendia o nome de Roberto Cláudio como sucessor, enquanto Camilo e Cid apoiavam a reeleição da então governadora Izolda Cela.

Segundo relatos, os ânimos se acirraram, e o encontro terminou sem consenso. Para críticos, ali começava a se desenhar o que hoje é descrito por adversários como uma estratégia “maquiavélica”.

Dias depois, durante um período de descanso na Lagoa do Uruaú, Cid teria sido novamente alertado por aliados sobre os movimentos políticos em curso. Em seguida, isolou-se na Serra da Meruoca, afastando-se temporariamente das articulações. Esse momento é apontado por analistas como decisivo: com Cid fora do centro das negociações, Camilo passou a liderar as articulações que culminaram na escolha de Elmano de Freitas como candidato ao governo e no descarte da possibilidade de candidatura à reeleição de Izolda Cela.

Para aliados de Cid, a decisão representou um esvaziamento progressivo de sua liderança dentro do grupo.

Reposicionamento

Após o pleito, novas divergências vieram à tona. A ex-governadora Izolda Cela chegou a ser cogitada para o Ministério da Educação, mas a articulação política resultou na escolha de Camilo para o cargo, reforçando seu interesse em ocupar posições estratégicas e limitando o crescimento de aliados. De favorita ao comando do MEC, sobretudo em virtude de seu histórico reconhecido na educação, Izolda foi conduzida a um cargo no ministério, subordinada a Camilo.Nos bastidores, críticos apontam que o movimento consolidou o estilo político de Camilo e aprofundou o distanciamento entre os antigos aliados.

Sobral

A eleição municipal em Sobral, tradicional reduto político dos Ferreira Gomes, teria marcado o rompimento definitivo. Segundo aliados do senador, o ministro Camilo articulou-se politicamente com Moses Rodrigues e Oscar Rodrigues, adversários históricos do grupo no município, e chegou a se posicionar publicamente contra a candidatura de Izolda, defendida de forma enfática por

Cid.

Durante toda a campanha, Camilo manteve-se distante e só apareceu em Sobral no último evento, na véspera da eleição. O gesto foi interpretado como sinal de que ele não teria priorizado a disputa. Após a derrota, em entrevista concedida em Fortaleza, atribuiu parte do resultado à criação da Taxa do Lixo, responsabilizando o então prefeito Ivo Gomes.

O apoio indireto aos Rodrigues teria contribuído para uma derrota considerada simbólica para Cid em seu principal berço político. Para observadores, o movimento representou não apenas uma divergência eleitoral, mas um gesto interpretado como a consolidação da cisão entre mentor e sucessor. Após a eleição, Camilo, Elmano e o secretário Chagas Vieira teriam intensificado a aproximação com o grupo adversário.

Cid Gomes critica concentração de poder do PT

Agora, com as especulações sobre uma possível candidatura de Camilo Santana ao governo estadual, a tensão volta a crescer. Cid Gomes já sinalizou resistência à ideia, alegando impactos diretos sobre o atual governador, Elmano de Freitas. O senador tem reiterado que seu compromisso é com Elmano, deixando claro que não apoiaria Camilo, além de se posicionar contra uma eventual desincompatibilização do Ministério no início de abril. Nos bastidores, a avaliação é de que esse movimento poderia enfraquecer o atual governador e transformar Camilo em uma espécie de “fantasma” político sobre a gestão.

Críticas

Há algum tempo, Cid vem criticando o que chama de “concentração de poder” nas mãos do PT no Ceará e defendendo maior protagonismo e espaços estratégicos para outros partidos aliados, como o PSB, ao qual está filiado. Esse posicionamento provocou um estremecimento na base governista. No fim de 2024, o abalo tornou-se mais evidente quando o PT, leia-se Camilo Santana, indicou Fernando Santana para a presidência da Assembleia Legislativa sem uma consulta prévia que contemplasse Cid, levando o senador a anunciar, naquele momento, um “rompimento” temporário com o governo Elmano.

Na sequência, a nomeação de aliados de Camilo para cargos estratégicos no Executivo estadual e a demissão de nomes ligados a Cid, como Quintino Vieira, da Superintendência de Obras Públicas (SOP), foram interpretadas como novos movimentos de enfraquecimento político do senador. Ainda em 2024, outro episódio aumentou a irritação de Cid: a expectativa era de que Evandro Leitão se filiasse ao PSB para disputar a eleição em Fortaleza pela sigla, mas o plano foi frustrado após articulação de Camilo e Elmano, que conduziram sua filiação ao PT, contrariando também a deputada Luizianne Lins.

Mais recentemente, os recados políticos do petismo a Cid teriam sido enviados pelo deputado federal José Guimarães, que lançou dúvidas sobre o apoio do senador a Elmano de Freitas ao admitir a possibilidade de candidatura de Ciro Gomes ao Governo do Estado, ampliando ainda mais o clima de desconfiança e disputa dentro da base aliada.

Compromisso

Aliados mais próximos de Cid, que acompanharam todas as suas contrariedades resultantes das atitudes de Camilo e de seu grupo político nos últimos anos, estão convictos de que o senador não assumirá qualquer compromisso caso o petista insista na ideia de disputar o Governo, movimento que pode inviabilizar a candidatura de Elmano. Ontem, quinta-feira (26), em Fortaleza, Cid manteve uma série de encontros com correligionários para tratar das definições das chapas proporcionais.

1. Cid lança Camilo
Ainda governador, Cid Gomes aposta em Camilo Santana como sucessor e o projeta politicamente. A escolha consolida uma relação de confiança e continuidade no grupo governista.

2. Camilo amplia poder próprio
Já no comando do Estado, Camilo fortalece sua base política e amplia articulações. Aliados de Cid passam a enxergar redução gradual da influência do antigo padrinho.

3. Camilo escolhe Elmano
Com Cid afastado das negociações, Camilo lidera a articulação que define Elmano de Freitas como candidato ao governo. A reeleição de Izolda Cela é descartada, gerando desconforto interno.

4. Sobral
marca ruptura
Na eleição em Sobral, aliados de Cid apontam que Camilo se aproximou politicamente de Moses e Oscar Rodrigues, adversários históricos dos Ferreira Gomes, e se posicionou contra Izolda.

5. Críticas ao PT e novo racha
Cid passou a criticar a “concentração de poder” do PT e a reagir a indicações estratégicas feitas sem sua anuência. A disputa interna se intensificou com as especulações sobre uma nova candidatura de Camilo ao governo.

6. Traição de Camilo
Nos bastidores, cresce a avaliação de que, assim como Camilo teria esvaziado antigos aliados, o próximo alvo pode ser Elmano. O Otimista acompanha os desdobramentos e os sinais de tensão desde que Cid afirmou que Camilo deixaria de ser uma “sombra” para se tornar um “fantasma” sobre a gestão, reforçando a percepção de que o governador pode ser preterido por seu antigo aliado.

Camilo Santana atuou para esvaziar o legado político de Cid Gomes no Ceará

A parceria política que aproximou o senador Cid Gomes (PSB) e o ministro Camilo Santana (PT) foi firmada sob a lógica da lealdade e da sucessão administrativa. Afinal, o pessebista foi um dos principais responsáveis por impulsionar a candidatura do petista ao Governo do Ceará, oferecendo respaldo político, estrutura partidária e capital eleitoral decisivos para a vitória.

Contudo, com o passar do tempo, especialmente a partir do primeiro mandato de Camilo como governador, a convivência entre os dois líderes passou a ser marcada por ruídos e desconfianças. Movimentos administrativos e rearranjos políticos internos foram interpretados como gestos calculados para reduzir a influência de Cid e diluir o peso de seu legado no Ceará.

Veja 4 ações da perseguição de Camilo que esvaziaram políticas de Cid Gomes

  1. Descaraterização do Ronda do Quarteirão

Programa Ronda do Quarteirão, uma das principais marcas da segurança pública na administração Cid (Foto: Divulgação/Governo do Estado)

Um dos episódios mais emblemáticos foi a descaracterização do programa Ronda do Quarteirão, uma das principais marcas da segurança pública na administração Cid. O projeto, que teve o nome e materiais de comunicação alterados, com a retirada de adesivos e identidade visual, chegou ao fim e será completamente substituído, até dezembro de 2018, pelo Raio.

  1. Acquario Ceará

 Acquario Ceará (Foto: Divulgação/Governo do Ceará)

Outro ponto de atrito foi o atraso a descaraterização das obras do Acquario Ceará. Projetado para ser um dos maiores do mundo na Praia de Iracema, em Fortaleza, sofreu com paralisações e abandono de etapas do projeto. Teve suas obras paralisadas em 2017 e nunca foi concluído. Após consumir aproximadamente R$ 130 milhões em recursos públicos, a estrutura foi transferida para a Universidade Federal do Ceará (UFC).

  1. Abandono do Centro de Formação Olímpica

Centro de Formação Olímpica (CFO) (Foto: Divulgação/Governo do Ceará)

O Centro de Formação Olímpica (CFO), uma das principais vitrines da política esportiva da gestão de Cid Gomes, também entrou na lista de equipamentos que foram deixados em segundo plano na administração de Camilo Santana. Inaugurado como um dos maiores complexos esportivos do Norte e Nordeste, o espaço perdeu protagonismo, enfrentou dificuldades na consolidação de sua programação e deixou de ocupar o papel estratégico originalmente projetado.

  1. Esvaziamento do Centro de Eventos

Centro de Eventos do Ceará (Foto: Tiago Stille /Casa Civil-Governo do Ceará)

Situação semelhante ocorreu com o Centro de Eventos do Ceará, considerado um dos maiores equipamentos do tipo no país à época de sua entrega. Concebido para impulsionar o turismo de negócios e grandes feiras internacionais, o local não recebeu a prioridade política necessária para ampliar sua ocupação e fortalecer sua agenda institucional, o que acabou impactando a visibilidade de uma das obras mais emblemáticas do ciclo administrativo liderado por Cid.

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