Entre a desconfiança e o desespero: a reaproximação que expõe as fissuras no poder

Entre a desconfiança e o desespero: a reaproximação que expõe as fissuras no poder

Por Paulo Sergio de Carvalho 23/02/2026 - 21:34 hs
Entre a desconfiança e o desespero: a reaproximação que expõe as fissuras no poder
Entre a desconfiança e o desespero

As recentes declarações do governador Elmano de Freitas, afirmando buscar aproximação e reiterando “plena confiança” no senador Cid Gomes, não soam como gesto espontâneo de unidade. Soam como movimento defensivo. Na política, quando a harmonia precisa ser proclamada em voz alta, geralmente é porque ela já não é tão sólida nos bastidores.

A verdade incômoda é que o grupo governista atravessa um momento de tensão interna. A distância política entre Cid e o ministro Camilo Santana deixou de ser especulação e virou fato perceptível. O que antes era divergência pontual passou a ter contornos estratégicos. E quando lideranças desse porte deixam de marchar no mesmo compasso, o reflexo é imediato na base.

O cenário fica ainda mais explosivo diante da possível candidatura de Ciro Gomes ao Palácio da Abolição. É aqui que o discurso oficial começa a enfrentar o teste da coerência. Alguém acredita, de fato, que Cid dividiria palanque com aliados que ataquem frontalmente seu irmão? A política admite pragmatismo, mas não elimina vínculos familiares — sobretudo quando o embate ganha tons pessoais.

A movimentação em torno da vaga ao Senado amplia a crise. O deputado Júnior Mano, visto como nome de confiança de Cid, enfrenta resistência dentro da própria base governista. Nos corredores do poder, a leitura é clara: ele pode não estar entre os dois escolhidos da chapa majoritária. Se isso se confirmar, o gesto será interpretado como um recado direto — e nada amistoso.

Nesse contexto, a declaração de aproximação feita por Elmano parece menos um gesto de generosidade política e mais uma tentativa de evitar um racha iminente. Porque, se Cid optar por manter distância dos palanques governistas, o impacto será devastador. E se, em um cenário extremo, decidir apoiar o irmão, o efeito dominó poderá desestabilizar toda a estratégia eleitoral da situação.

O grupo governista já convive com a possibilidade de um “palanque protocolar”, onde alianças existam apenas no papel. A hipótese de Cid atuar de forma independente, focando na eleição de seu candidato ao Senado, enquanto mantém posição ambígua no plano majoritário, não é descartada. E ambiguidade, em ano pré-eleitoral, costuma ser sinônimo de fragilidade.

O mais preocupante para o governo não é apenas a eventual saída formal de Cid — mas a erosão simbólica da unidade. Quando aliados começam a desconfiar uns dos outros, a narrativa da estabilidade se desfaz. E quando o eleitor percebe fissuras internas, a oposição ganha oxigênio.

Ao final da janela partidária, o tabuleiro ficará mais claro. Até lá, o que se vê é um governo que tenta reafirmar alianças enquanto os ruídos aumentam. Nos bastidores, o clima é de tensão. E, se a água já começou a entrar no barco, talvez não seja com declarações públicas que se conterá o avanço da maré.

Na política cearense, o problema raramente é o que se diz — mas o que se é obrigado a dizer.