Enquanto pacientes aguardam, R$ 108 milhões em vacinas e remédios são queimados
A gestão de estoques da saúde pública federal voltou ao centro das críticas após a revelação de que, apenas em 2025, o Ministério da Saúde incinerou R$ 108,4 milhões em vacinas, medicamentos e insumos. O dado chama atenção não apenas pelo volume financeiro, mas pelo fato de que 17,1% desse total — o equivalente a R$ 18,5 milhões — ainda estavam dentro do prazo de validade no momento do descarte.
Os números apontam para falhas de planejamento e logística que acabam impactando diretamente a população usuária do Sistema Único de Saúde (SUS). Especialistas avaliam que problemas na distribuição, armazenamento e controle de demanda podem levar ao vencimento ou à inutilização de produtos, mesmo quando ainda poderiam ser utilizados na rede pública.
Medicamentos de alto custo entre os descartados
Entre os casos mais emblemáticos está o descarte de unidades de blinatumomabe, medicamento indicado para tratamento de Leucemia Linfoblástica Aguda, com custo aproximado de R$ 141 mil por unidade. Também foram incineradas ampolas de brentuximabe vedotina, utilizado no combate a linfomas, com preço unitário superior a R$ 88 mil.
O prejuízo se soma a um cenário mais amplo: em três anos da atual gestão federal, o volume total incinerado chega a R$ 2 bilhões — mais de três vezes o valor descartado durante todo o governo anterior. O pico ocorreu em 2023, quando o montante atingiu R$ 1,3 bilhão.
Nota oficial
Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que a atual gestão “transformou a gestão dos estoques do SUS, superando o cenário deixado pelo governo anterior, marcado por sistemas defasados e deficiências acumuladas que levaram às perdas apontadas pelo relatório da CGU”.
A pasta destacou ainda que medicamentos e insumos incinerados por não conformidade técnica são repostos ou ressarcidos, conforme cada contrato, e que todas as ações recomendadas pela Controladoria-Geral da União já foram cumpridas ou estão em fase final de execução.
Debate sobre eficiência
O caso reacende o debate sobre eficiência administrativa, transparência e planejamento na área da saúde. Para especialistas em gestão pública, o desafio vai além da reposição contratual: envolve aprimorar sistemas de controle, prever demandas regionais e evitar que recursos milionários — especialmente em tratamentos de alto custo — sejam perdidos enquanto pacientes aguardam atendimento na rede pública.


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