Quando uma voz se cala, nasce uma lenda: adeus, Cid Carvalho
Das tardes na Rádio Cidade AM, ainda menino, à minha caminhada no jornalismo, Cid Carvalho foi uma das maiores referências da minha vida profissional. Hoje, o Ceará se despede de um mestre da comunicação
Há pessoas que passam pela vida exercendo uma profissão. Outras transformam essa profissão em missão. Cid Sabóia de Carvalho pertence a esse seleto grupo de homens que fizeram do jornalismo um compromisso permanente com a verdade, com a informação e com a sociedade.
Sua morte, aos 90 anos, não representa apenas a despedida de um jornalista, advogado, professor, escritor e ex-senador. Representa o silêncio de uma das vozes mais respeitadas da comunicação cearense, cuja trajetória atravessou décadas influenciando profissionais e formando gerações de comunicadores.
Para mim, sua partida tem um significado ainda mais profundo.
Desde menino, em Fortaleza, nossa terra natal, acostumei-me a ouvir a voz de Cid Carvalho pelos rádios da capital. Era uma voz firme, segura e inconfundível, que transmitia credibilidade antes mesmo de qualquer notícia ser anunciada.
Guardo lembranças que o tempo jamais apagará.
Depois das aulas no tradicional Colégio Joaquim Albano, muitas vezes esperava meu pai para voltarmos para casa. Enquanto isso, tinha o privilégio de permanecer nas dependências da Rádio Cidade AM, na Avenida Desembargador Moreira, nº 2.565, no bairro Dionísio Torres. Foi ali que acompanhei de perto um dos programas mais marcantes do rádio cearense: "Antenas e Rotativas".
Ainda garoto, observava admirado aquele parente que dominava os microfones com naturalidade, inteligência e profundo conhecimento dos fatos. Talvez eu ainda não tivesse consciência, mas ali começava a nascer minha paixão pela comunicação.
Os anos passaram.
Quando ingressei no Exército Brasileiro, escolhi imediatamente a área de Comunicação Social. Depois de deixar a vida militar, continuei investindo na formação profissional, passando pela Anatel, onde tive a oportunidade de realizar diversos cursos ligados às telecomunicações e à comunicação.
Hoje percebo que, consciente ou inconscientemente, carregava comigo muitas das referências construídas ao longo da vida por homens como Cid Carvalho.
Ele nunca precisou levantar a voz para ser ouvido.
Nunca precisou recorrer ao sensacionalismo para conquistar audiência.
Nunca precisou abrir mão da ética para fazer jornalismo.
Sua autoridade vinha do conhecimento. Sua credibilidade era resultado de décadas de trabalho sério.
Cid também escreveu uma página importante na crônica esportiva cearense. Foi comentarista esportivo de primeira linha, um profundo conhecedor do futebol e um apaixonado torcedor do Fortaleza Esporte Clube. Ao lado de outros grandes nomes, ajudou a fundar a Associação dos Profissionais da Crônica Desportiva Cearense (APCDEC), contribuindo para fortalecer e valorizar o jornalismo esportivo no Estado.
Seu legado, entretanto, vai muito além do rádio ou da televisão.
Na política, participou da Assembleia Nacional Constituinte e ajudou a construir a Constituição de 1988. Na educação, formou incontáveis alunos como professor universitário. Na literatura, tornou-se membro da Academia Cearense de Letras. Na comunicação, tornou-se um patrimônio do Ceará.
Talvez a maior herança que Cid Carvalho tenha deixado não esteja em cargos ocupados, prêmios recebidos ou homenagens prestadas.
Seu maior legado está no exemplo.
Exemplo de seriedade.
Exemplo de compromisso.
Exemplo de respeito ao público.
Exemplo de amor pelo jornalismo.
Seguindo, inclusive, a tradição iniciada por seu pai, o também inesquecível jornalista Jader de Carvalho, Cid dedicou toda uma vida ao ofício de informar. Manteve viva a convicção de que o jornalismo existe para servir à sociedade, e não aos interesses momentâneos.
Hoje, perco uma das minhas maiores referências profissionais.
Perco alguém que, mesmo sem saber, ajudou a moldar minha visão sobre o verdadeiro papel da imprensa.
Mas referências como Cid Carvalho não morrem.
Continuam presentes em cada jornalista que escolhe a ética em vez do espetáculo.
Em cada profissional que entende que credibilidade leva décadas para ser construída.
Em cada comunicador que faz da informação um serviço público.
Sua voz pode ter silenciado.
Mas suas lições continuarão ecoando por muito tempo nas redações, nos estúdios de rádio, nas cabines esportivas e na memória de todos aqueles que aprenderam a admirar o seu trabalho.
Obrigado por sua dedicação inestimável à comunicação.
Obrigado pelos ensinamentos, mesmo quando eles vieram apenas pelo exemplo.
Obrigado por honrar o sobrenome Carvalho e por engrandecer o jornalismo cearense.
Descanse em paz, primo. Sua voz permanecerá para sempre na história da imprensa do Ceará.


Paulo Sergio de Carvalho - Quando uma voz se cala, nasce uma lenda: adeus, Cid Carvalho