A fila da vergonha

Enquanto milhares de cearenses aguardam anos por uma cirurgia, denúncias de privilégios políticos ampliam a revolta contra a fila do SUS

Por Paulo Sergio de Carvalho 28/07/2026 - 12:44 hs
A fila da vergonha
A fila da vergonha

Há situações que ferem não apenas a lei, mas também a consciência coletiva de uma sociedade. O suposto favorecimento de pessoas influentes nas filas do Sistema Único de Saúde (SUS) é uma delas. Trata-se de uma prática que, quando comprovada, afronta o princípio da igualdade, desacredita as instituições públicas e condena milhares de brasileiros à espera interminável por um direito básico: o acesso à saúde.


O drama das filas do SUS não é novidade. Em todo o país, homens, mulheres, idosos e crianças convivem diariamente com a angústia de aguardar meses ou até anos por uma consulta especializada ou por uma cirurgia. Muitos têm a qualidade de vida comprometida. Outros sequer chegam a tempo de receber o tratamento necessário. Essa realidade, infelizmente, tornou-se comum no Brasil, quando jamais deveria ser aceita como normal.


Enquanto cidadãos anônimos enfrentam uma verdadeira via-crúcis em busca de atendimento, denúncias recorrentes de "fura-fila" envolvendo agentes políticos e pessoas com influência continuam alimentando a descrença da população. Cada privilégio concedido fora dos critérios estabelecidos representa uma injustiça contra quem respeita a ordem de espera e depende exclusivamente da saúde pública.


Foi nesse contexto que o Ceará amanheceu diante de uma denúncia grave apresentada pelo deputado estadual Heitor Férrer. Em reunião extraordinária com parlamentares da oposição, o deputado afirmou que o ex-secretário da Casa Civil, Chagas Vieira, teria utilizado sua influência política para beneficiar sua irmã na fila de cirurgias do SUS.


Segundo a denúncia, enquanto cerca de 64 mil cearenses aguardam procedimentos cirúrgicos na rede pública estadual, pacientes chegam a esperar até seis anos por uma cirurgia de mama. Em contraste, conforme relatado pelo parlamentar, a irmã do ex-secretário teria realizado um procedimento em apenas 12 dias.


Heitor Férrer também afirmou que a cirurgia para redução das mamas teria sido registrada como procedimento não estético, permitindo sua realização pelo SUS. Trata-se de uma acusação séria, que precisa ser rigorosamente apurada pelos órgãos competentes, assegurando-se, como determina o Estado Democrático de Direito, o contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal às pessoas citadas.


Mas o problema ultrapassa os nomes envolvidos. O que está em julgamento é a credibilidade do sistema público de saúde. O cidadão que aguarda anos por uma cirurgia tem o direito de saber que a fila é organizada por critérios médicos, técnicos e transparentes, jamais por influência política ou proximidade com o poder.


É inadmissível que, em pleno século XXI, ainda paire sobre o SUS a suspeita de que alguns brasileiros sejam "mais iguais que outros". A saúde pública não pode ser instrumento de favorecimento, moeda de prestígio ou extensão dos gabinetes políticos. Ela existe para atender quem mais precisa, com justiça, impessoalidade e respeito.


O Governo do Estado e os órgãos de controle têm o dever de oferecer respostas rápidas e transparentes à sociedade. Se as denúncias forem improcedentes, que isso seja demonstrado com documentos e absoluta clareza. Se houver irregularidades, que os responsáveis sejam identificados e respondam por seus atos na forma da lei.


O que não pode continuar é a banalização de episódios que reforçam a sensação de que existem duas portas de entrada no SUS: uma para o cidadão comum, condenado à longa espera, e outra para aqueles que desfrutam de influência política.


Os mais de 64 mil cearenses que aguardam por uma cirurgia não esperam privilégios. Esperam respeito. Esperam transparência. Esperam justiça.


E essa é uma fila que nenhum governo pode se dar ao luxo de ignorar.