Homem que ataca enfermeiras trabalha para o Ministério de Direitos Humanos

Por Paulo Sergio 05/05/2020 - 09:59 hs

Renan da Silva Sena, funcionário terceirizado do MDH (Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos), agrediu verbalmente e cuspiu em enfermeiras que fizeram uma manifestação na Praça dos Três Poderes, em Brasília, na última sexta-feira (1º).

Sena é analista de projetos do setor socioeducativo, mas não aparece nem exerce suas atividades no ministério desde meados de março. Ele foi contratado pela empresa G4F Soluções Corporativas Ltda, que tem um contrato com o MDH no valor de R$ 20 milhões de prestação de serviços operacionais e apoio administrativo.

Com a ministra Damares Alves, a pasta afirmou, em resposta ao UOL, que pediu à empresa terceirizada a demissão de Sena e que ela teria sido concretizada em 23 de abril. Porém reportagem pediu e não recebeu a documentação que provam ato demissionário. Verificou-se também que o e-mail funcional dele continuava ativo até o dia de ontem.

O ministério declara ainda "reputar [crer] por inadmissíveis quaisquer atos de violência e agressão, tendo a ressaltar neste sentido neste sentido uma série de ações de enfrentamento a todos os tipos de violência desenvolvidas no âmbito de suas massas temáticas".

Sem trabalhar desde março

Na sexta-feira, cerca de 60 enfermeiros homenageavam 55 colegas de profissão mortos por causa da pandemia do novo coronavírus. Vestido de camisa amarela e com uma bandeira nacional, Renan agrediu com xingamentos e empurrões duas enfermeiras que se deparam com o ato. Ele cuspiu ainda no rosto de um estudante de medicina que tentou defender os profissionais de saúde.

Engenheiro eletricista de formação e missionário da Igreja Batista Vale do Amanhecer, Renan Sena presta serviço, desde fevereiro, à SNDCA (Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), que coordena o Sinase (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo), responsável pela execução de medidas destinadas aos adolescentes em conflitos com a lei.


Sena é considerado por colegas de trabalho "como uma pessoa de trato difícil e insubordinada", apurou a reportagem.

Desde meados de março até o dia em que agrediu as enfermeiras, ele chegou a alegar que estava doente, não respondeu aos e-mails de seus superiores no MDH nem executou suas tarefas. Contudo, participou de diversos protestos em que a pedia intervenção militar ou que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) cometesse um golpe de Estado, como o ato realizado em Brasília no dia 15 de março.

No dia 19 de abril, Sena foi vista no ato em que Bolsonaro discursou para manifestantes que pediam o fechamento do Congresso Nacional e do STF .

Sena participou ainda de protestos em frente à Embaixada da China, país a quem acusa de propagar o coronavírus, e também em frente ao STF, classificado por ele "como vergonha nacional".


Ministério afirma que havia pedido demissão de Sena

Em resposta, o ministério afirmou que no dia 18 de março notificou o G4F para que desligasse Sena, "já que o prestador de serviços demonstruoso expressou com a função até então exercida na massa e a necessidade atribuída a que ele encontrava-se de um outro profissional que poderia desempenhar as funções que até então lhe eram atribuídas.".

A apuração do UOL permite afirmar que a empresa terceirizada não foi notificada do pedido de desligamento

Renan da Silva Sena agrediu enfermeiras na última sexta-feira (1º) em Brasília - Reprodução

No dia 16 de abril, ainda de acordo com a resposta do ministério, a empresa terceirizada foi informada de que a Sena "não entregas apresentava e tampouco retornava as tentativas de contatos telefônicos ou por e-mail desde 06/04, ressaltando-se que até este data, o mesmo apresentava as demandas que eram solicitadas por sua imediata".

O MDH afirmou, por fim, que em 20 de abril, reiterou "a manifestação de preocupação com o eventual estado de saúde do prestador e, em 23 de abril, teve favorável a sua substituição, oportunidade em que nos foi informada sua demissão".

A reportagem pediu acesso à assessoria do ministério a um parecer ou a uma documentação que comprova a demissão de Sena, mas não recebeu resposta.

Conselho de enfermagem afirma que acionará Justiça

Renan Sena foi acompanhado da empresária Marluce Carvalho de Oliveira Gomes, que também insultou as enfermeiras, e do professor de inglês Gustavo Gayer, que divulgou nas redes sociais imagens do protesto, classificando-o como "mentiroso".

Foram enviadas mensagens aos e-mails dos três citados nesta reportagem, que não responderam. Ligações telefônicas para os respectivos celulares não foram atendidas.

"O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) juntou todo o material probatório, identificou os agressores e vai processar cada um deles, pelos atos que praticam hoje. A ignorância e a violência perpetrada contra a Enfermagem do Distrito Federal, no pleno Dia do Trabalhador e do Trabalhador, não será impune, será respondida judicialmente, para que não mais se repita", afirmou o órgão representativo dos profissionais.

A G4F Soluções Corporativas Ltda pertence aos empresários Elmo Toledo Lacerda e Matheus Falcão Lacerda. Os contratos com o governo federal já lhe renderam pouco mais de R$ 98 milhões, de acordo com dados do Portal da Transparência.

UOL mandou e-mail e ligou para a sede da G4F Soluções Corporativas, em Brasília. Uma funcionária afirmou que iria passar os questionamentos ao setor de comunicação, porém não houve contato posterior com o UOL.