Ele vive há 25 anos em hospital após ser baleado e sonha com casa própria
Cleyton Cipriano Pinto tinha 19 anos quando ficou tetraplégico ao ser baleado no pescoço. Sem receber os cuidados adequados de sua família em casa, Cleyton passou a morar no Hospital Geriátrico e de Convalescentes Dom Pedro 2º, que fica no Tucuruvi, zona norte de São Paulo, onde reside há 25 anos.
Hoje, aos 45 anos, Cleyton conta um pouco da sua trajetória. Ele se casou, se separou, escreveu uma autobiografia que demorou 12 anos para ficar pronta, está fazendo faculdade e sonha em sair do hospital e ter o seu próprio lar.
"Eu, minha mãe e meu padrasto fomos levar algumas amigas para casa após uma festa. Meu padrasto se envolveu em uma briga com um amigo das meninas, entrei no meio para tentar apaziguar a situação, mas o rapaz acabou disparando um tiro que pegou no meu pescoço. Ele fugiu, algumas pessoas me colocaram no carro e me levaram ao hospital mais próximo.
Chegando lá, os médicos identificaram que a bala havia atingido a vértebra C5 e que eu tinha ficado tetraplégico. Eles decidiram não retirar a bala porque havia o risco de eu não sobreviver —ela está alojada no meu pescoço até hoje. Fiquei três meses internado, mas não passei por nenhum tipo de reabilitação. Emagreci, perdi massa muscular, desenvolvi escaras, tive várias infecções. Fiquei extremamente abatido.
"Minha mãe não tinha responsabilidade e nem conhecimento adequado para cuidar de mim em casa. Ela bebia, saía com frequência e eu passava a maior parte do tempo sozinho. Tinha noites que ficava no colchão de água, com frio, fome, sede e sem nenhuma pessoa para me ajudar. Perdi completamente a perspectiva de vida, achava que ia morrer a qualquer momento".
A tetraplegia gerou muito estresse na família, teve um dia que minha mãe ficou nervosa e acabou me agredindo. Pedi para minha irmã ligar para a ambulância e entendi que não havia mais condições de morar com elas.
Após receber alta hospitalar, me recusei a voltar para casa, expliquei a situação e disse que ia morar no hospital. Naquela época, conseguiram uma vaga para mim no Hospital Geriátrico e de Convalescentes Dom Pedro 2º, que era uma instituição que atendia pacientes de longa permanência —onde estou até hoje.
"O hospital salvou a minha vida, me acolheu, cuidou de mim e me ajudou nos momentos mais difíceis. Fiz amizade com médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, com o pessoal da limpeza, da manutenção. Sou grato a cada um, eles se tornaram a minha família".
A bala que atingiu Cleyton está alojada em seu pescoço até hoje - Arquivo Pessoal
"Conheci minha namorada no hospital e fomos casados por 8 anos"
Ao longo desses 25 anos morando no hospital já passei por muitas coisas, incluindo um relacionamento de 12 anos. Em 2008, comecei a namorar uma funcionária que trabalhava na área da limpeza do hospital —ela se desligou da empresa para podermos manter o relacionamento.
Ela me visitava quase todos os dias, passava o dia na casa dela e voltava à noite aos finais de semana, a gente passeava, ia ao parque, ao shopping. Naquela época, o hospital autorizava os pacientes de longa permanência a sair, mas depois de alguns anos houve algumas mudanças e não temos mais esse tipo de autorização.
Eu e a minha esposa à época tínhamos o desejo de ter um filho juntos —nós dois já tínhamos filhos de outros relacionamentos. Chegamos a ver a possibilidade de eu fazer uma inseminação artificial, mas não tínhamos dinheiro para pagar o tratamento.
Acredito que isso somado ao fato de que não podia mais sair do hospital gerou um desgaste na relação, acabamos nos separando, mas continuamos amigos. Namoramos 4 anos e fomos casados por 8.
"Estou fazendo faculdade de empreendedorismo digital"
Durante a minha jornada no Dom Pedro 2º já tive que superar muitas adversidades, uma delas foi aprender a escrever com a boca e fazer uma autobiografia "A História da Minha Vida - Não Permita que o Ontem se Repita Hoje", em que relato, por exemplo, o envolvimento que tive com drogas e tráfico quando era adolescente.
Antes de ficar tetraplégico, tinha estudado até a oitava série, mas depois que mudei para o hospital, fiz um supletivo e concluí o ensino médio. Cursei um semestre e meio de direito, mas não terminei por não conseguir acompanhar as aulas presenciais devido a algumas complicações de saúde.
Além disso, fiz um curso de programação e ganhei uma bolsa integral de graduação da Universidade Guarulhos, onde atualmente estou cursando empreendedorismo digital à distância. Já trabalhei como vendedor de cadeira de rodas e revendedor de roupas no hospital, no momento não estou trabalhando, mas tenho uma vaquinha online para tentar comprar uma casa.
Em busca de oportunidades, Cleyton estuda à distância
"Tecnologia transformou a minha vida"
Uma das coisas mais difíceis de morar no Dom Pedro 2º é a falta de contato físico com a sociedade. Nesse sentido, a tecnologia transformou a minha vida e me trouxe mais liberdade, conforto e praticidade. Por exemplo, antigamente usava um pedaço de madeira na boca para poder digitar no celular e no computador, estraguei vários dentes fazendo isso.
Recentemente, ganhei um computador novo e um dispositivo tecnológico que me permite controlar o cursor do mouse com o movimento da cabeça e dar cliques com leves toques no rosto. O equipamento foi projetado e confeccionado com tecnologia 3D pelo Laboratório de Inovação Acadêmica do Grupo Ser Educacional através do projeto Mãos Livres.
Gosto de navegar pela internet, ler livros, notícias, ver vídeos, ouvir músicas, conversar e me conectar com outras pessoas.
Cleyton se adaptou para poder manter contato com outras pessoas pela internet - Imagem: Arquivo pessoal
"Quero me tornar advogado e ter a minha própria casa"
Um dos desafios de se morar no hospital é o risco diário de contrair infecções, a rotatividade de pacientes e algumas limitações que a instituição possui, mas de forma geral sou bem cuidado. Atualmente, tomo medicação para controlar colesterol, diabetes e faço fisioterapia motora uma vez por semana.
Minha rotina é sempre a mesma, passo o dia deitado, converso com o pessoal, fico na internet e estudo. Entendo que a busca por conhecimento é o único caminho para eu evoluir com dignidade e atingir meus objetivos. Meu sonho é me tornar um advogado, trabalhar, sair do hospital, ter a minha própria casa, e ter o meu filho biológico e os meus três netos, que moram em Pernambuco, perto de mim."
Sobre morar em um hospital
Cleyton não tem perspectiva de alta porque não tem uma casa para morar. Ele precisa de home care, ou seja, um serviço de saúde que oferece cuidados médicos e de enfermagem no ambiente residencial do paciente, em vez de em hospitais ou clínicas. Mesmo que o Estado pague este serviço, ele ainda precisa de uma casa.
O Hospital Geriátrico e de Convalescentes Dom Pedro 2º é administrado pela Santa Casa de São Paulo, que é uma instituição filantrópica. Os hospitais da Santa Casa atendem pacientes do SUS.
Hospitais filantrópicos são instituições privadas sem fins lucrativos que obtêm recursos principalmente através de contratos com o SUS para serviços prestados, além de doações e outras fontes. Eles recebem pagamento do SUS por procedimentos realizados e podem também buscar recursos através de campanhas de captação de recursos, e doações de pessoas físicas e jurídicas.


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