Escola Paulo VI: um marco histórico na educação de Mangabeira
Não se pode falar da educação em Mangabeira, distrito de Lavras da Mangabeira, sem mencionar a figura visionária do professor João Bosco Vieira. Foi ele o grande idealizador e articulador da transformação que mudaria para sempre o cenário educacional da comunidade: a fundação da Escola de 1º Grau Paulo VI.
João Bosco Vieira
A
ideia que nasceu pelo rádio
Em meados da década de
1970, mais precisamente em 1975, João Bosco — fã de rádio e atento ao
noticiário diário — tomou conhecimento de que o Governo do Estado do Ceará, então
comandado pelo coronel Adauto Bezerra, iria transformar as chamadas “escolas
reunidas” e grupos escolares em Escolas de 1º Grau.
Em Mangabeira, as escolas
reunidas contavam apenas com três professoras — Socorro Mangueira (cunhada de João
Bosco), Glorinha Duarte e Maria Luiza Oliveira — que atendiam alunos até a
quarta série. A limitação estrutural impedia a continuidade dos estudos na
própria comunidade. Foi nesse contexto que nasceu o sonho de ampliar o acesso à
educação local.
Articulação
política e compromisso coletivo
Determinado, João Bosco
elaborou quatro cartas estratégicas: uma para seu pai, Doquinha dos Torrões;
outra para Zeca Duarte, chefe político local; uma para Derinha Mangueira, seu
sogro e também liderança política; e uma para o influente Dr. João Gonçalves de
Sousa, filho ilustre de Mangabeira e uma das personalidades de maior projeção
nacional à época.
Todos responderam
positivamente, assumindo o compromisso de apoiar a transformação.
Entretanto, havia uma
pendência junto ao Ministério da Educação relacionada ao Ginásio São José de
Mangabeira, mantido pela Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CENEC).
Atendendo a pedido de Dr. João Gonçalves, João Bosco deslocou-se a Juazeiro do
Norte para regularizar a prestação de contas, organizando documentação
financeira, folhas de pagamento, notas fiscais e recibos, deixando a situação
plenamente regularizada.
O
projeto ganha forma
Com a pendência resolvida,
João Bosco iniciou a elaboração do projeto de criação da nova escola,
deslocando-se diversas vezes de Fortaleza — onde residia — até Mangabeira.
O projeto precisava ser
apresentado por um deputado estadual. A causa foi abraçada pelo então deputado
Acilon Gonçalves, da vizinha Aurora, votado à época em Lavras da Mangabeira.
Após os trâmites legais, o projeto foi aprovado, oficializando a criação da
Escola de 1º Grau de Mangabeira.
O nome Paulo VI e a estruturação
O nome “Paulo VI” foi
escolhido por João Bosco em reunião com as lideranças políticas locais e mais
algumas pessoas próximas em homenagem à tradição religiosa do distrito e ao
sumo pontífice Papa Paulo VI. Tratava-se de um nome neutro, que unia fé e
consenso, evitando possíveis disputas por homenagens pessoais.
O quadro funcional foi definido após reuniões comunitárias. Além das três professoras das escolas reunidas, foi contratada Lídia Mangueira, cunhada de João Bosco, e outras 20 pessoas indicadas por lideranças locais.
João Bosco e sua esposa,
Nenenzinha Mangueira, tornaram-se diretores fundadores. Também integraram o
corpo docente Paulinho Batista e Fátima Lemos, que deixaram Fortaleza para
residir em Mangabeira, fortalecendo o projeto educacional.
Organização
inédita e impacto social
No livro Professor João
Bosco Vieira – Uma vida dedicada à educação, de autoria de Nenenzinha
Mangueira, são relatados fatos marcantes, como a criação de um arquivo escolar
organizado — algo inexistente até então.
Para regularizar a
documentação dos alunos, muitos casais precisaram oficializar o casamento civil
no cartório local para garantir as certidões de nascimento dos filhos. O então
jovem político Chico Aristides custeou as despesas cartoriais e forneceu
fardamento completo aos estudantes, demonstrando o envolvimento coletivo na
causa educacional.
Posse histórica e início das aulas
No início de 1976, em solenidade marcada por grande participação popular, João Bosco e Nenenzinha tomaram posse como diretores fundadores.
O evento contou com a
presença de diversas autoridades e lideranças regionais, simbolizando o
reconhecimento oficial do novo capítulo educacional de Mangabeira.
As aulas tiveram início em
fevereiro daquele ano.
Crescimento, inovação e protagonismo
A Escola Paulo VI cresceu ano após ano, implementando inovações pedagógicas, promovendo festas comemorativas, reuniões de pais e mestres e atividades recreativas que integravam a comunidade.
Uma das iniciativas mais marcantes foi a participação no desfile cívico de 7 de Setembro realizado em Mangabeira. Para viabilizar a banda marcial, foi promovida uma disputa para escolha da “Rainha do Colégio”, arrecadando recursos para compra de instrumentos musicais.
João Bosco trouxe da capital cearense seu ex-aluno Haroldo Mesquita para treinar os integrantes da banda. No mesmo ano, a escola desfilou pelas ruas, encantando o público e consolidando sua presença no cenário educacional da região.
Um legado que permanece
A criação da Escola Paulo VI não foi apenas um ato administrativo, mas um movimento de transformação social. João Bosco Vieira deixou um legado educacional profundo em Mangabeira — fruto de visão, coragem, articulação política e compromisso comunitário.
Um feito histórico que permanece vivo na memória e na formação de gerações.


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