Ceará tem ao menos dois casos de extorsão por dia e aumento de 400% em uma década
O Ceará registrou, em média, pelo menos, dois casos de extorsão por dia e um aumento de 408% no número de crimes dessa categoria em um período de quase dez anos. Entre o ano de 2016 e maio de 2026, foram contabilizados 8.633 episódios de extorsão em 64 municípios cearenses.
Os dados são da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS).
Os indicadores revelam um salto expressivo nas ocorrências no período de dez anos: o número passou de 273 casos de extorsão no primeiro ano do levantamento, em 2016, para 1,3 mil em 2025, acumulando ainda 569 registros nos cinco primeiros meses deste ano.
Ainda segundo o levantamento, o número de ocorrências ficou abaixo de 500 registros anuais entre 2016 e 2020. A partir de 2021, os casos apresentaram forte alta, ultrapassando a marca de mil por ano. O ápice da série histórica ocorreu em 2025, quando o estado contabilizou 1.388 casos.
Extorsão contra comerciantes no Ceará: 120 suspeitos já foram presos
Balanço divulgado pela SSPDS nesta quinta-feira, 18, aponta que, desde julho de 2025, 120 suspeitos de envolvimento em crimes de extorsão contra comerciantes foram capturados no Ceará.
Em nota, a pasta afirmou haver um protocolo de atuação para ocorrências do tipo. “Todas as informações de ações criminosas que chegam ao conhecimento das autoridades policiais são investigadas pela Polícia Civil do Estado do Ceará (PC-CE)”, afirma a SSPDS.
Além disso, a Secretaria acrescenta que os setores de Inteligências das Forças de Segurança também auxiliam nas ações policiais. A pasta destaca que o registro do Boletim de Ocorrência (BO) é fundamental para subsidiar as investigações e auxiliar na identificação dos suspeitos dos crimes.
Segundo a Polícia Militar do Ceará (PMCE), sempre que um caso é comunicado às autoridades, o policiamento ostensivo é reforçado na região onde a ocorrência foi registrada, com objetivo de identificar as práticas e localizar os suspeitos.
Por fim, a SSPDS destaca que realiza operações de forma permanente em todo o Ceará com base nos dados fornecidos pela Supesp e pelos levantamentos de inteligência.
As ações são realizadas por órgãos vinculados à SSPDS com apoio de órgãos parceiros. Ainda no âmbito da Polícia Judiciária, a Polícia Civil atua com foco nas identificações e prisões de suspeitos de grupos criminosos responsáveis por esses tipos de crimes, afirma a pasta.
Setores de internet, gás e água viraram alvos de facções
Os casos de extorsão no Ceará ganharam novos contornos e intensidade a partir de 2024, após a imposição de "taxas" por facções criminosas a provedores de internet, distribuidoras de gás, serviços de água e comerciantes locais.
Entre 2024 e o início de 2025, uma onda de ataques a provedores de internet em Fortaleza e na Região Metropolitana — principalmente em Caucaia — foi registrada no estado.
Os crimes foram orquestrados pelo CV com o objetivo de criar um monopólio do serviço na região e ampliar o domínio territorial do grupo.
Em março de 2025, o governador Elmano de Freitas (PT) anunciou a criação de um grupo especial de investigação focado em combater esses ataques.
Nos bairros afetados, empresas sofriam ameaças, incêndios em equipamentos e expulsões de áreas estratégicas, o que forçava os provedores a pagar para operar ou abandonar a região.
De julho do ano passado até o fim de abril deste ano, 89 pessoas foram presas suspeitas de crimes praticados contra provedores de internet no Ceará. Além disso, chegou a 100 o número de suspeitos detidos por expulsão de moradores no estado no mesmo período.
Extorsões atingiram provedores e comércios locais
Outro setor afetado foi o de distribuição de gás. Em fevereiro deste ano, investigadores do 32º Distrito Policial descobriram que o CV passou a exigir o pagamento de R$ 10 por cada botijão de gás comercializado na região do Bom Jardim, em Fortaleza.
Em março, duas pessoas foram presas por envolvimento no esquema. O pagamento da taxa era a condição imposta para o funcionamento dos estabelecimentos; em caso de recusa, os empresários sofriam retaliações.
O comércio de água mineral também virou alvo. Em fevereiro deste ano, pelo menos, sete suspeitos foram presos em Sobral, no Norte do Estado, sob a acusação de praticar a extorsão a mando do CV.
Os episódios de extorsão também foram observados em um município vizinho, Cariré. Informações recebidas pelo MPCE revelaram que o CV proibiu comerciantes de água mineral de trabalhar na cidade após eles se negarem a pagar as quantias exigidas pela organização criminosa.


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