“Passar o pano” na política: quando a lealdade cega substitui a ética pública

Quando a conveniência partidária fala mais alto que a ética e a responsabilidade pública

Por Paulo Sergio de Carvalho 27/01/2026 - 10:53 hs
“Passar o pano” na política: quando a lealdade cega substitui a ética pública
“Passar o pano” na política: quando a lealdade cega substitui a ética pública

No vocabulário político brasileiro, poucas expressões se tornaram tão recorrentes — e tão reveladoras — quanto “passar o pano”. Popularizada nas redes sociais e nos debates públicos, a frase resume um comportamento antigo: relativizar erros, minimizar escândalos e justificar condutas questionáveis de líderes políticos por afinidade ideológica ou conveniência partidária.

Na prática, “passar o pano” significa trocar o critério ético pelo critério da torcida. O que seria inaceitável quando cometido pelo adversário passa a ser tolerável — ou até invisível — quando parte do próprio campo político. Esse mecanismo não distingue esquerda, direita ou centro; ele atravessa todo o espectro ideológico e se consolida como um dos maiores entraves à maturidade democrática.

O problema vai além do discurso. Quando erros são normalizados, a responsabilidade pública é esvaziada. Escândalos deixam de gerar consequências, gestores se sentem protegidos por suas bases políticas e a mensagem transmitida à sociedade é clara: o poder vale mais que a ética. O resultado é um ciclo vicioso de descrédito institucional, no qual o cidadão perde a confiança na política e nas instituições.

Outro efeito colateral é o empobrecimento do debate público. Em vez de discutir soluções, políticas públicas e resultados, o debate se transforma em defesa automática de personagens. Argumentos racionais cedem espaço a ataques pessoais, comparações seletivas e narrativas que tentam justificar o injustificável. O adversário nunca erra pouco; o aliado nunca erra muito.

Esse comportamento também contribui para a radicalização. Ao “passar o pano”, líderes e apoiadores reforçam a lógica do “nós contra eles”, onde qualquer crítica é vista como perseguição e qualquer denúncia é tratada como conspiração. A política deixa de ser um espaço de construção coletiva e se torna um campo permanente de conflito.

É importante destacar: cobrar responsabilidade não é trair uma ideologia. Ao contrário, é fortalecê-la. Sistemas políticos saudáveis são aqueles em que aliados também são cobrados, onde erros são reconhecidos e corrigidos, e onde a transparência é vista como valor, não como ameaça.

Romper com a cultura do “passar o pano” exige maturidade política, imprensa vigilante e uma sociedade disposta a cobrar coerência. Não se trata de escolher lados, mas de escolher princípios. Enquanto erros forem relativizados conforme o autor, a política continuará refém da hipocrisia — e o país, das mesmas práticas que insiste em condenar apenas quando lhe convém.

No fim das contas, a democracia não se enfraquece apenas pelos erros cometidos no poder, mas sobretudo pela disposição coletiva de fingir que eles não existiram.